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ornal da Praia (JP) – É já no final deste mês, dia 31 de Julho que começam as Festas da Praia 2026 este ano com o lema “Terra que nos move, povo que nos une”. Como é que surge o tema para este ano?
César Toste (CT) – O tema surge da minha experiência de vida relacionada com a minha participação em atividades culturais. E, atendendo que as Festas da Praia são festas concelhias, acho que é importante valorizar a nossa “força” como concelho, nomeadamente através dos ex-libris relacionados com a nossa arquitetura, com a nossa natureza, com o nosso mar, tudo o que é o nosso povo, o tema surge assim. Claro, temos 10 freguesias e uma vila e se pensarmos no global, temos um cartaz muito rico para quem nos visita, para quem vai estar connosco nestes dias de festa ou para quem escolhe os Açores para viver.
A frase “Terra que nos move, povo que nos une” demorou algum tempo a criar. Tive a colaboração dos membros da minha equipa na construção final deste tema, mas, desde o início queria ter os 11 representantes nos carros alegóricos, com uma representante de cada freguesia e da vila do nosso concelho, valorizando assim desde os Biscoitos até ao Porto Martins o melhor que nos oferecem.
JP – Os próprios elementos identitários presentes no cartaz de Festas da Praia deste ano refletem essa união entre todas as freguesias e vila do concelho?
CT – Os elementos que estão presentes no cartaz fazem referência ao aglomerado das freguesias e vila do concelho. Claro, alguns elementos presentes no cartaz representam todas as freguesias, porque todas as freguesias têm uma igreja, por exemplo. Escolhi a igreja das Quatro Ribeiras por ser a mais antiga do concelho e representa esta freguesia, a coroa do Espírito Santo por estar presente em todas as freguesia, mas com predominância na Vila Nova, o chafariz embora esteja também presente em todas as freguesia, tem uma relação particular com as Fontinhas, a roda do moinho com a Agualva, o avião muito relacionado com as Lajes, este sol aqui no Abismo está muito relacionado com os Biscoitos, a árvore presente em várias freguesias como a Aguava, também está muito associada a São Brás, à sua Zona de Lazer do Baldio, bem como ao seu logo (heráldica), o ramo de oliveira associado à freguesia do Porto Martins, o Império da Caridade um dos ex-libris do concelho, associado a Santa Cruz, temos o violão associado a todas as freguesias mas com grande destaque na Fonte do Bastardo e temos no final do cartaz, no arremate, os bordados em representação do Cabo da Praia, da sua Cooperativa de Bordados, mas, também um elemento presente em todas as freguesias.
JP – Desde a edição das festas de 2024 que voltou a figura de Coordenador das Festas. O que levou a aceitar coordenar as Festas da Praia 2026?
CT – O que me levou a aceitar foi o gosto pelo desafio, que muito me honrou e reconheceu o que tem vindo a fazer ao longo dos anos. na área cultural… e um “amor” à própria terra, no sentido de fazer e dar o meu contributo para a Cultura e para o sucesso que são as Festas da Praia e para o nosso concelho.
JP – Estamos a cerca de 15 dias do início das festas como estão a decorrer os preparativos?
CT – A azáfama agora é maior. Claro que nesta altura estamos a trabalhar mais intensamente, tanto a nível dos cortejos, tanto a nível dos pormenores, como dos preparativos de rua para que tudo esteja a postos e organizado para que as montagens sejam o máximo eficazes e reflitam o que preparamos ao longos dos últimos meses.
O programa em si já está definido, praticamente encerrado. Já agrega a parte do desporto, a parte cultural. Estamos em estreita colaboração com os patrocinadores das Festas, integrar a DreamZone, a parte da Feira Gastronómica para que fique tudo integrado no programa.
JP – No que diz respeito ao programa deste ano o que é que o público pode esperar?
CT – O programa constituído na base, logo do dia 31 de Julho, temos a abertura da Feira Gastronómica e da DreamZone. No sábado, dia 1 de Agosto, é dia dedicado ao Desfile de Abertura, o dia 2 é dedicado ao Desfile de Filarmónicas e atuações em diversos palcos, o dia 3, segunda-feira, será a Tourada de Praça, no dia 4 temos as Danças de Carnaval, no dia 5 o Pézinho e a Cantoria, o dia 6 será dedicado às crianças com as Marchas Infantis e o Desfile Infantil, na sexta-feira temos as Marchas dos Adultos, no sábado temos o Cortejo Etnográfico pelas 19h00 e no domingo, dia último das Festas, teremos a presença do Folk Azores.
A complementar temos atividades desportivas, temos excelentes cartazes musicais para os vários palcos, temos a novidade este ano de termos um palco dentro do recinto da Feira Gastronómica para concertos mais intimistas. Na Praça Francisco Ornelas vamos ter um espaço com barraquinhas para as instituições sem fins lucrativos, semelhante ao que aconteceu no Natal passado e ter assim um espaço onde possa termos mais público. Nos dias 3, 4 e 5 de Agosto vamos ter a Zona Infantil na Rua de Jesus, tentando assim “chamar” mais pessoas para esta local das festas.
Também, vamos este ano complementar o programa com momentos que já não aconteciam alguns anos como o Blues, uma noite de Jazz, dar mais enfoque algumas bandas nacionais no Palco Marina, por exemplo, com a presença do David Antunes, dos Descendentes ou dos Big Show Circus. A Zona Verde é já uma aposta ganha em que as pessoas podem ter uma zona verde, uma zona de tascas, zona infantil e um palco, a própria Feira Gastronómica já tem a sua estrutura. São tudo motivos para que as pessoas venham às Festas da Praia, desfrutem das festas.
JP – Quanto ao Cortejo de Abertura, ao Cortejo das Crianças, são sempre pontos altos na Festas da Praia.
CT – No que diz respeito ao Cortejo de Abertura, as estruturas, as coreografias, o vestuário, bem como do Cortejo das Crianças, as duas próximas semanas serão de trabalho intenso. Neste momento já temos quase tudo preparado.
O Cortejo de Abertura terá quatro carros e o Cortejo das Crianças três.
O Cortejo de Abertura, o primeiro carro foca essencialmente a arquitetura e as tradições das freguesias e da vila do concelho, o segundo carro foca-se num dos elementos que nos une que é o Mar, o terceiro carro foca-se na Natureza e o quarto carro naquilo que é o Povo. Neste cortejo vamos ter cerca de 177 figurinos a desfilar.
A Marcha Oficial, da responsabilidade da Associação da Marcha das Festas da Praia, em estreita colaboração com a Coordenação das Festas, adequa a Marcha ao tema das festas no que diz respeito à música, à letra, às roupas, ou seja tem havido aqui um trabalho conjunto de estreita colaboração entre a Coordenação das Festas e o próprio coordenador da Marcha, o José Esteves.
O Cortejo de Abertura tem Direção Artística do Marco Borges e o Cortejo das Crianças tem Direção da Nivalda Bettencourt e da Vanessa Dias.
A par disso temos um conjunto de voluntários de que fazem parte da comissão de Festas e que têm sido o pilar, porque se não fossem os voluntários e não fosse esta equipa, não conseguiríamos fazer as festas.
Ainda no que diz respeito ao Cortejo das Crianças, o tema será filmes infantis atuais, permitindo muito movimento e cor em que o primeiro e segundo carro representam duas estórias e o terceiro uma estória.
Outro cortejo que quero referir e que tem sido uma “aposta ganha” é o Cortejo Etnográfico que este ano foca as profissões desde o mar, passando pela lavoura, pela agricultura, pela olaria, pelo ferro, pela madeira, pela lã, pelo linho, ou seja, com a colaboração dos grupos folclóricos da ilha porque este ano vamos ter a presença da maior parte dos grupos de folclore da ilha Terceira, será um cortejo com mais de 260 pessoas que vai permitir retratar as vivências das profissões, algumas já extintas. A equipa para a elaboração deste cortejo é constituída pelo Leandro Ávila, Odília Marques, João Celestino Marques e Bruno Godinho.
JP – Em todo o país, as festas concelhias são um cartaz turístico atrativo e que trazem às cidades festa e alegria e desenvolvimento. Qual é a mensagem que quer deixar a quem nos vai visitar nestes dias não esquecendo os terceirenses e os nossos praienses que são o “povo que nos une”?
CT – A principal mensagem que eu, junto com a minha equipa, e aquilo também que me propus à Câmara Municipal da Praia da Vitória é sobretudo a valorização de um todo, ou seja, ao colocar a Festa desde os Biscoitos até ao Porto Martins, nós temos feito um trabalho de proximidade no sentido de criarmos atividades desportivas ou culturais que envolvam todos. Também estamos a fazer um trabalho de proximidade juntos dos patrocinadores da própria festa e das empresas do concelho tentando auscultá-las e tentando ir de encontro daquilo que eles acham que os pode valorizar. Portanto, é neste sentido gostaria que a Festa na sua continuidade seja um foco de união… e, o último carro do Cortejo de Abertura vai simbolizar esta união com a representante de Santa Cruz em cima de uma estrutura onde tem a união das 10 freguesias e vila do concelho junto do símbolo da Câmara. Somos melhor como concelho quando estamos todos unidos?
JP – …digamos é o lema das Festas da Praia 2026?
CT – Exatamente, é a “Terra que nos move, povo que nos une”!
Entrevista: Rui Marques/JP
Foto: CMPV
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Jornal da Praia (JP) - No passado dia 8 de Junho realizou-se a cerimónia de Lançamento da Primeira Pedra da ampliação da Unidade de Cuidados Continuados Integrados (UCCI) do Lar D. Pedro V. O porquê desta ampliação?
João Canedo (JC) – Esta ampliação é uma aspiração do Lar D. Pedro V. Iniciamos a Unidade de Cuida dos Continuados com 10 camas, depois passamos para 12 e, neste momento, não conseguimos dar resposta à crescente procura. Desde 2019, tínhamos a necessidade de ampliar a nossa UCCI, visto ser uma necessidade da comunidade da ilha Terceira porque a Unidade de Cuidados Continuados é para a ilha Terceira.
Em 2020, com a tutela da Vice-Presidência do Governo Regional dos Açores do Dr. Artur Lima e a sua equipa, conseguimos delinear um plano e orçamento para a ampliação da UCCI e começamos a trabalhar. Tivemos algumas complicações por que como tudo “nada cai do céu” e com muito trabalho da nossa parte e do Governo Regional, então surgiu o projeto de aumentarmos em mais 10 camas esta unidade. Vamos passar de 12 para 22 camas.
Uma lacuna que tínhamos era a Unidade de Cuidados Continuados estar integrada em ERPI, Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, antigo Lar de Idosos. Mas, o que acontece é que numa Unidade de Cuidados Continuados podem estar internadas pessoas de várias idades porque a base de uma unidade de Cuidados Continuados é recuperar as pessoas para voltarem para as suas casas. Efetivamente, existem duas vertentes que possuímos na Unidade de Cuidados Continuados: unidade de média duração e reabilitação especificas para que a pessoa possa ser reabilitada e regressar a casa e de longa duração com mais cuidados. Quem determina a escolha e envio das pessoas para a Unidade é Serviço Regional de Saúde.
Agora, com esta ampliação vamos ter a Unidade de Cuidados de Cuidados Continuados separada da Estrutura Residencial para Idosos, com uma equipa de pessoas habilitadas com formação na área dos Cuidados Continuados.
Também, esta ampliação vai ligar internamente a Fisioterapia e o Clube de Saúde que estavam em edifícios separados o que irá melhorar o funcionamento de toda a estrutura do Lar D. Pedro V e a qualidade de vida dos nossos utentes que tinham de sair à rua para aceder aos dois serviços.
JP – O que leva uma pessoa a recorrer aos Cuidados Continuados?
JC- Por exemplo um AVC. Uma pessoa que tenha um AVC tem de ter uma recuperação rápida e, por vezes, os hospitais são lentos nessa recuperação e, por isso, os serviços de Cuidados Continuados são mais rápidos na recuperação dos utentes.
Para que essa recuperação seja rápida e eficaz, ou seja, para termos uma Unidade Cuidados Continuados funcional, temos de ter um quadro de funcionários, uma equipa habilitada que passa por uma médica em medicina geral e familiar, uma fisiatra, enfermeiros, nutricionista, psicólogos, terapia da fala, terapia ocupacional, auxiliares de idosos, assistentes sociais, não esquecendo a parte dos serviços gerais. Com esta ampliação temos de alargar o quadro de pessoal do Lar D. Pedro V.
JP - Com este aumento da capa cidade o Lar D. Pedro V reforça a capacidade de resposta nos Cuidados Continuados. Para quem não conhece, o que são cuidados continuados? Esta ampliação vem reforçar também as respostas da Rede Regional de Cuidados Continuados Integrados?
JC – No que diz respeito aos Cuidados Continuados Integrados na ilha Terceira temos duas unidades, a Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo com mais doentes protocolados e o Lar D. Pedro V com a ampliação para 22 camas, vai reforçar a resposta nesta área. Gostaria de salientar que o projeto contempla dois quartos individualizados com oxigénio canalizado para que as pessoas que necessitarem não tenham de se deslocar ao hospital. A Unidade de Cuidados Continuados é uma extensão de um hospital…
As pessoas que recorrem aos cuidados continuados vêm com várias situações como um AVC. Necessitam de uma recuperação rápida, Não tendo condições em casa ou família que os possam ajudar, vêm para o Lar D. Pedro V recuperar. Por exemplo, alguém que parte uma perna e que não tem apoios em casa, podemos apoiar nessa recuperação com pessoal habilitado, desde que seja referenciada e com critérios necessários para os Cuidados Continuados, vem para a nossa Unidade e recuperamos essa pessoa para que possa voltar para casa. Os cuidados continuados dirigem-se a qualquer pessoa ou idade.
Esta ampliação vem efetivamente aumentar a nossa capacidade que passa de 12 para 22 camas e temos vários pedidos para a Unidade.
Gostaria de referir que na Unidade de Cuidados Continuados temos também a vertente do Cuidador In formal, caso necessite de descanso e se tivermos vaga, podemos apoiá-lo através da Rede Regional de Cuidados Continuados Integrados, internando a pessoa que ele tem a seu cargo
JP - O Lar D. Pedro V é uma instituição de referência na ilha na área da gerontologia e demonstrado nos últimos anos uma grande dinamização na prestação de cuidados à população. A que se deve esta evolução?
JC – Iniciamos com a Fisioterapia e os Gabinetes Médicos, uma ver tente privada que dava apoio aos idosos, a evolução do Lar.
Logo a seguir em 2000, passamos a ter 18 Residências Assistidas constituídas por apartamentos T1 com ligação 24h direta ao Lar em caso de necessidade de apoio, dado o Lar possuir serviços 24h por dia, um investimento do Lar D. Pedro V, onde começamos a trabalhar outro tipo de população.
Até 2011 tínhamos cerca de 40 funcionários, a partir desta data começamos a melhorar a equipa técnica e isso obrigou-nos a ter outra visão de funcionamento e melhorar os nossos serviços.
Em 2010 começamos a trabalhar na Certificação ISO 9001, certificação de qualidade dos serviços. Ao começarmos esta certificação, obrigou-nos também a pensar no nosso quadro de pessoal e a melhorar as nossas infraestruturas e, conseguimos efetivamente fazer em 2011 e inaugurar em 2012, a ampliação do Lar D. Pedro V onde estava a Fisioterapia e antigo tribunal da Praia resultando numa nova estrutura digna para os nossos utentes. Em 2015 procedemos à remodelação do edifício sede.
Em 2016 recebemos então a Certificação ISO 9001. Foi, uma forma conseguirmos melhorar os serviços e de trabalharmos todos para o mesmo objetivo desde o pessoal da Fisioterapia, passado pelo pessoal da Estrutura Residencial para Idosos, pelo Centro de Dia, pelo Apoio Domiciliário - SAD, pela Unidade Cuidados Continuados que começou nesta altura… começa mos todos a trabalhar para o mesmo objetivo que é a qualidade de serviço prestado, tanto é que devido à ISO 9001 o Lar é auditado duas vezes por ano, sendo uma auditoria interna e outra externa feita por entidades competentes.
Com a Unidade de Cuidados Continuados em funcionamento desde 2015, em 2021 começamos a certificação de qualidade da DGS – Direção Geral da Saúde passando assim em 2022 a Unidade a possuir certificação de qualidade pela DGS. Tanto a ISO 9001 e a certificação da DGS são certificações a nível nacional e, pelo que sei, nós so mos a única IPSS com estas duas certificações, uma prova de que o Lar D. Pedro V possui serviços de qualidade prestados, ao ser acreditado pela ISO 9001.
JP - Além dos serviços já identificados, o Lar desenvolve outros…
JC – O Lar D. Pedro V foi pioneiro no arranque do projeto-piloto “Novos Idosos” do Governo Regional dos Açores na Praia da Vitória e em Ponta Delgada foi o Lar Luís Soares de Sousa. Na altura do arranque do programa foram 50 vagas e tivemos 126 candidaturas pelo que foi necessária uma seleção dos candidatos. Neste momento trabalhamos com 47 idosos do Programa “Novos Idosos” no concelho da Praia da Vitória.
Sobre este projeto o feedback tem sido excelente. Temos uma equipa técnica que promove o bem-estar destes idosos através de alguns trabalhos como o re tardamento da velhice, perda de memória e recuperação da marcha, programando junto dos Cuidadores Informais que deles cuidam, o que devem fazer, bem como trazemos estes idosos aqui para o Lar para que possam também conviver connosco, promovendo também o seu bem-estar e não terem o estigma de que um lar é um lugar fechado, mas sim aberto, com qualidade.
Atualmente o Lar D. Pedro V possui 127 funcionários. Desde 2011 houve um crescimento grande de funcionários em que passamos a ter mais técnicos e mais funções, aumentamos serviços prestados como a Unidade de Cuidados Continuados ou o SAD que atualmente tem 5 equipas. Passamos a ter mais idosos no Centro de Dia, a Animação que na altura tínhamos uma pessoa temos agora 8 pessoas a trabalhar na animação do Centro de Dia, com os utentes da Unidade de Cuidados Continuados, da ERPI ou das Residências Assistidas.
Outra área que gostaríamos de trabalhar é a parte das Demências que atualmente está misturada com a ERPI. Gostaríamos de criar uma Unidade de Demências com pessoal especializado que pudesse trabalhar com os idosos que possuem estes problemas com a Alzheimer, é uma das lacunas que temos.
Também, gostaríamos de aumentar a capacidade do Centro de Dia porque temos já uma lista de espera grande e que neste momento só podemos ter 15 pessoas
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Jornal da Praia (JP) – “Onde a terra vulcânica encontra o Atlântico nasce um vinho único dos Açores”. Este lema retirado da vossa página da internet (https://www.dimasadega.pt/) caracteriza a sua adega? Como é que surge a Dimas Adega?
Dimas Pires (DP) – Caracteriza todos os vinhos dos Açores e principalmente a nossa adega.
Há uns 24 ou 25 anos atrás iniciei a produção de vinho de cheiro, seguiu-se vinho tinto e vinho branco e depois vinho verdelho. Comecei assim a dar os primeiros passos como produtor de vinho, numa altura em que a nossa ilha Terceira estava bastante atrasada na produção de vinho comparando com a ilha do Pico que produz muitos vinhos.
A nossa adega foi evoluindo e apostando na produção diversificada de vinhos. Esta adega foi uma grande aposta e, hoje em dia, produzir vinho exige conhecimentos e cuidados. Atualmente, os vinhos têm de estar frescos com fermentações controladas no frio, tem de haver um cuidado imenso para podermos vender os nossos vinhos com qualidade. Tem de existir a parte da enologia, temos o enólogo residente André Costa e agora o meu filho Renato Pires que está a estudar Enologia e que dão apoio técnico.
Quanto ao surgimento não tem nada a ver com família, a Dimas Adega, surge do nada, começa do zero. Na minha família sempre fomos habituados a trabalhar desde cedo e na minha infância fui habituado pelo meu pai a trabalhar. Quando iniciei as minhas funções de agente da PSP, trabalhei também na construção civil para arranjar dinheiro para investir, isto por volta de 1999. Então, pensei que deveria produzir alguma coisa… surgiu a oportunidade de comprar esta vinha que estava perdida e comecei a produzir vinho. Depois fui comprando outras vinhas aqui à volta e produzindo mais vinho. Como disse, comecei do zero e todo o dinheiro que tinha fui investindo ao longo dos anos na vinha. Toda esta área de vinhas onde estamos a conversar estava perdida, abandonada… primeiro, o acesso a este lugar, que agora vemos arranjado com pavimento de cor vermelha, era difícil e foi com muita “pressão” do setor político que se conseguiu arranjar graças à Câmara Municipal da Praia da Vitória e ao Secretário da Agricultura António Ventura que conseguimos agora ter um pavimento fantástico que veio beneficiar este lugar e beneficiar também um trilho pedestre que por aqui passa com muitos turistas que visitam as adegas e que ficam a conhecer e provam os nossos vinhos, o que é excelente para nós produtores.
JP – Como é que foram os primeiros anos de produção e que tipo de castas foi introduzindo nas suas vinhas?
DP – Primeiro começamos com uma casta de vinho tinto, a casta Caladoc, que abandonamos devido a problemas de sepa com baixa produção, tivemos de arrancar tudo e começar de novo. Convertemos então a vinha em verdelho e agora em arintos… O verdelho é uma casta que produz pouco mas faz um vinho de excelência.
Também temos outras castas que produzem outros tipos de vinho porque procuramos diversificar a nossa oferta a pensar nas várias pessoas e no poder de comprar… notamos que as pessoas que provam os nossos vinhos, apesar de gostar do verdelho agora premiado, também gostam dos outros vinhos produzidos pela nossa adega e, é esta diversificação e abertura que procuramos oferecer na nossa adega.
JP – Produzido pela vossa adega o vinho Rosa de Setembro branco colheita 2025 foi distinguido com a Medalha de Prata no Concurso Vinhos de Portugal 2026, organizado pela ViniPortugal, um dos concursos de vinhos mais exigentes e prestigiados do setor vitivinícola nacional. A que se deve esta distinção?
DP – Tenho dois filhos, o Rafael que está a tirar Medicina e o Renato que está a tirar Enologia. Cada um tem a sua parte de trabalho na adega, a minha esposa tem a parte da contabilidade e eu a orientação do trabalho. O Rafael disse que devíamos enviar a concurso o vinho branco Rosa de Setembro e disse-lhe que seria muito difícil porque eram muitos vinhos a concurso, mas o meu filho Rafael insistiu e estava convicto que este vinho seria premiado.
JP – Como é que soube que o vinho podia ir a concurso?
DP – Este ano estivemos presentes com os nossos vinhos e produtos na feira Expo Atlantic Terroir em Angra do Heroísmo, tivemos uma grande afluência na nossa bancada. Tivemos pessoas ligadas ao sector do vinho e que percebem de vinhos que no primeiro dia provaram os nossos vinhos, no dia seguinte voltaram para confirmar e no terceiro dia foi a confirmação do que provaram e disseram que este vinho estava ótimo! Logo, começamos a perceber que tínhamos um vinho com potencial e respeito de ir a concurso… foi a primeira vez que concorremos e ganhar uma medalha foi um orgulho e um prémio ao nosso trabalho de equipa, porque sem este trabalho de equipa não conseguimos nada.
O trabalho aqui na vinha é diário, por exemplo, temos o senhor José que nos dá um grande apoio, recebe as pessoas que nos visita, cuida da vinha, como disse é um trabalho de equipa.
JP – O que representa para a adega, para os Biscoitos e para a nossa ilha este prémio?
DP – Todos os prémios que vêm para a nossa ilha são importantes e dignificam os nossos produtores.
JP – Além do vinho agora premiado quais os outros vinhos que a sua adega produz?
DP – Produzimos além do Rosa de Setembro branco, o Canjirão e o Costa Norte, tintos, o Rosa de Setembro e o Costa Norte, rosé e o Costa Norte branco. Os vinhos Costa Norte são os que produzimos mais porque as castas são mais produtivas, são de excelente qualidade e de preço mais acessível para as pessoas. Já o Canjirão é de venda só para turistas, um vinho que não será produzido.
JP – Além dos vinhos, a adega produz outras bebidas quais?
DP - Também temos vários licores que são produzidos pela minha esposa e levou alguns anos a perceber e aperfeiçoar os licores bem como a certificá-los e muitas pessoas procuram os nossos licores.
Temos vários licores como o Licor de Leite, um licor mais cremoso, ou o Licor de Chá produzido com chá dos Açores.
JP – Estamos a fazer esta entrevista aqui nas suas vinhas nesta linda zona, neste lindo dia sol, no meio destas curraletas que produzem os melhores vinhos de Portugal. Como é que vê a produção de vinho nos Biscoitos?
DP – Estamos num lugar dos Biscoitos onde não passam carros. Se estivermos atentos, podemos ouvir os pássaros ou até as abelhas. Para mim esta é a zona mais bonita dos Biscoitos.
No que diz respeito à produção de vinho nos Biscoitos, julgo que alguns novos produtores são malconduzidos por pessoas que tiraram formação. Não tenho formação, mas vejo situações em que foram aconselhados e depois tiveram baixa produção. Quando me perguntam como aplico um produto na vinha e explico-lhes como faço e depois fazem o contrário e a produção continua baixa, não corre bem porque o conhecimento empírico é muito importante, as formações também são importantes. Mas, o facto ter de trabalhar aqui durante muito anos e “levado na cabeça” muitas vezes, aprendemos com os erros e os erros que tu comentes ensinam… é a “lei da vida”.
A vinha, estamos a falar de plantas, temos de cuidar delas, de saber como se cuida, como se planta na caldeira e como se poda a vinha… temos anos de seca em que a vinha entra em stress hídrico, temos anos em que o vento queima ou destrói. Temos de saber que produtos devemos aplicar, por exemplo nas minhas vinhas aplico estimulantes naturais à base de algas e plantas que fortalecem a vinha para que esta fique mais forte e possa ter melhor um enraizamento mais forte e firme para quando vier o bom tempo possam brotar e aguentar se não as plantas morrem.
Gostava de referir também que recentemente foi aprovada no Parlamento Regional um diploma que possivelmente vem ajudar a quem trabalha com enoturismo com a criação de espaços onde as pessoas poderão receber os turistas e isto vem desenvolver ainda mais este sector. Foi uma iniciativa do CHEGA com aprovação dos partidos da Coligação AD que possibilitaram este diploma, é um passo muito importante para que possamos fazer mais… fiquei triste com alguns partidos que votaram contra. Mas, temos de ver que atualmente o turismo está cada vez mais exigente e temos de oferecer mais e adaptarmos às novas exigências.
JP – Uma outra questão prende-se com o mercado, com a venda dos vinhos produzidos nos Biscoitos. Como está o mercado dos vinhos? Consegue escoar os seus produtos?
DP – Não temos problemas no escoamento dos nossos produtos. Geralmente, quando acaba o ano temos de controlar o stock até à vinda do novo vinho. Nos próximos anos vamos ter uma produção maior porque estamos a plantar mais área de vinha que fomos adquirindo e recuperando.
Temos o mercado da ilha Terceira que é o nosso mercado principal, o nosso mercado n.º 1 e vamos trabalhar para que este mercado seja sempre o nosso principal. Quando subestimamos o nosso mercado, as pessoas ao nosso lado, quando isto acontece é um problema, porque se falhar o mercado exterior, temos de contar com as pessoas da nossa ilha.
Sou eu que faço a distribuição aqui na ilha e gosto de ter um contacto direto com quem comercializa o meu vinho, os restaurantes. Ainda há pouco tempo, eu e os meus filhos, fomos alguns restaurantes, não conseguimos ir a todos, explicar o que eram os nossos vinhos porque percebi que os restaurantes não acreditam nos nossos vinhos e isto aplica-se aos vinhos produzidos aqui na ilha porque existe um estigma de não acreditarem nos nossos vinhos produzidos na ilha e o que é de fora é que é bom, fomos a vários restaurantes explicar o que são os nossos vinhos. Agora já começam a perceber o potencial dos nossos vinhos e a faturação aumenta, mas existe uma grande falta de formação.
JP - … e o futuro da Dimas Adega?
DP – Gostaria de aguentar mais alguns anos na vinha. Tenho dois filhos que gostem disto e, certamente, vão assegurar a continuidade deste projeto.
Entrevista : Rui Marques/JP
Fotos: Rui Marques/Dimas Adega
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Jornal da Praia (JP) – A Sofia Ribeiro é médica gastroenterologista. O que levou a enveredar por esta área da Medicina e como é que foi o seu per curso académico e como decorreu o seu internato numa área em que se lida de muito próximo com a vida humana?
Sofia Ribeiro (SR) – Era uma boa aluna e tinha um exemplo em casa a seguir… A minha mãe é médica de família. É uma médica de família tradicional, muito envolvida com a sua comunidade onde conseguimos perceber que há um apreço pelo papel de um médico. Claro, criei uma grande admiração por ela e pelo trabalho dela e a Medicina sempre me sensibilizou.
Durante o curso, no meu terceiro ano, fui diagnosticada com uma colite ulcerosa, doença inflamatória do intestino, e, que, curiosamente dentro das áreas da medicina que estudei foi a que mais apreciei. A parte abdominal, a parte cirúrgica, foram as que mais me despertavam atenção, daí ter enveredado por esta área da medicina.
Gosto do relacionamento humano, das interações com as pessoas. O internato foi exigente e o stress para este tipo de patologias não é o melhor amigo. Portanto, durante alguns anos não tive a doença bem controlada… mas, às vezes os pacientes gostam de ter como exemplo os próprios médicos e a minha condição gerava empatia com doentes.
Foram 6 anos de curso de Medicina, o internato complementar são 5 anos de gastroenterologia e o internato geral 2 anos. Estávamos nos anos 90, não havia telemóveis, ligávamos para os pais das cabines telefónicas… era assim a vida do estudante açoriano em Portugal continental…
JP – Em 2012, já de regresso à sua terra natal, assumiu no Centro de Oncologia dos Açores, a direção de um programa inovador de rastreio do cancro colorretal que posteriormente foi implementado a nível nacional. Do que se tratou este programa?
SR – Regressei à ilha Terceira em 2012. Passei pelos três hospitais dos Açores. No hospital da Horta fiz uma parte do internato, sendo que a maior parte foi no hospital de Ponta Delgada. Mas, optei por voltar à minha terra.
Em 2012, coordenei um programa de rastreio do cancro colorretal numa altura em que não havia um programa organizado de base populacional. O que havia era aquilo a que chamamos rastreio oportunístico, ou seja, em determinadas circunstâncias fazia-se uma colonoscopia de rastreio e naquela altura falava-se no Método Guaiaco para a pesquisa do sangue oculto efetuado nalguns centros em Coimbra. E nós, Centro Oncológico, modelando o que estava a ser feito no Alentejo, introduzimos pela primeira vez um rastreio de base populacional baseado na pesquisa de sangue oculto. Nesta altura debatia-se muito qual deveria seria o método de eleição, se deveríamos seguir diretamente para a colonoscopia, o exame que visualiza melhor as lesões, mas mais evasivo e tínhamos a limitação dos recursos. Fizemos então uma experiência piloto, um programa inovador de rastreio que iniciamos primeiro na ilha do Faial, expandimos às outras ilhas e o modelo nacional que acabou por ser adotado, foi semelhante ao dos Açores.
JP - Foi com esta experiência que começou a questionar os limites das terapias convencionais? É aqui que começa a despertar para outras alter nativas no tratamento dos pacientes com cancro colorretal?
SR – Como lhe estava a dizer, tinha a minha doença desde o terceiro ano da faculdade. Apesar de saber da existência de todos os suplementos, das melhores dietas, dos melhores fármacos, não tinha a colite completamente estabilizada. No pós-Covid 19, passei por um período mais desafiante em que fui levada a refletir e a “olhar para dentro” e iniciei um caminho de autodesenvolvimento.
Quanto à experiência do programa de rastreio foi um programa que tinha a ver com o contribuir para a sociedade com uma educação para a saúde e alertar a população para a sua saúde, envolvendo o doente e responsabilizá-lo pela sua saúde, era um primeiro alerta e mostrar ao doente que poderia fazer algo pela sua saúde.
Depois, a nível hospitalar fiquei um bocadinho desiludida porque não poderia dar toda a resposta ao meu utente, daí ter surgido o projeto da clínica, uma forma de dar uma resposta mais personalizada e centrada no paciente. Este projeto surge em 2016. Também, apesar dos tratamentos todos certos e algumas melhorias transitórias, os pacientes recorriam, continuavam a apresentar vários sintomas como azia, inchaços, dor abdominal, diarreias ou obstipações, dificuldades na digestão e, apesar dos exames indicar tudo normal, os pacientes continuavam com estes problemas o que gerava frustração quer por parte do doente que dizia que estava a sentir algo, quer por parte do médico que administrava todos os suplementos e fármacos disponíveis no tratamento e não o surtiam efeito. Estamos a falar de pessoas muito ativas, inseridas no mercado de trabalho, com graus de exigência variada, vão para as redes sociais procurar respostas e comparações e que até fazem uma dieta muito adequada, mas mesmo assim apresentam sintomas.
Acho que, a certa altura, deixou-se de se olhar para o doente como um todo, isto devido às várias áreas que a medicina atualmente possui e nós não podemos desenquadrar o doente do seu meio envolvente. Gosto muito do Modelo Biopsicossocial da doença, em que o doente faz parte do todo, em que a mente influencia todos os processos do corpo e esse corpo por sua vez está envolto do ambiente social, alimentar, portanto, é este modelo que defendo, temos de ver o doente como um todo.
JP – Em 2016 concretiza o projeto da criação de uma clínica médica privada. A Gastropraia, além de oferecer várias especialidades, surge também no seguimento da procura de novas alternativas às terapias ditas convencionais e assim oferecer um modelo de atendimento mais próximo e integrador?
SR – Com a criação desta clínica, procuro oferecer uma abordagem diferente ao paciente em que podemos estar mais próximos e disponíveis para quando ele precisa, para que ele não siga intervalos protocolares entre consultas, adaptando as consultas às suas necessidades… ou seja, personalizar assim a medicina e não ser igual para todos.
Além da gastroenterologia, a clínica tem outras especialidades como Psicologia, Nutrição, valências de Fisioterapia.
JP – A partir de 2025 começa a desenvolver terapias holísticas associadas à gastrenterologia. Como é que surge a Gastrenterologia Holística nos trata mentos que aplica e do que se trata?
SR – Como disse, no período pós-Covid passei por um momento de reflexão pessoal, comecei a enveredar pela área do Desenvolvimento Pessoal. Depois de fazer este percurso pessoal, encontrei muitas as respostas que procurava há muitos anos. Consegui, trabalhando em mim, finalmente ter uma colonoscopia sem doença ativa. Foi em Janeiro do ano passado.
Com esta minha experiência, pensei isto de facto funciona e se funciona comigo tenho de ajudar outras pessoas.
Holístico é basicamente como o Modelo Biopsicossocial. Holístico significa envolver todas as componentes do indivíduo, ou seja, envolver a mente, envolver o ambiente, envolver a sua herança famiiar, a sua alimentação, a sua situação de vida, qual o padrão dominante, as suas crenças, envolve tudo.
JP – Como é aplicada e qual é o feedback dos pacientes que tem enveredado por esta via de tratamento não convencional?
SR – Alguém, por exemplo, que tem sintomas recorrentes, começo por avaliar, por exemplo, o padrão de stress, quando verifico o padrão de stress, começo a perceber quais são os padrões mentais que estão subjacentes àquele padrão de stress e identificar várias crenças, vou começar por ressignificar essas crenças e depois trabalho muito a parte emocional. Nós fomos criados, ou a minha geração foi muito criada, com pouca inteligência emocional… “tens de ser forte”, “não chores”, “não manifestes aquilo que estás a sentir”. Não temos uma linguagem emocional muito rica… e também percebi que havia muita sintomatologia que estava associada a emoções não expressas, começo em consulta a trabalhar esses padrões com o paciente.
São feitos vários exercícios com o paciente, faço-o refletir, peço para ele em casa fazer uma lista de atividades, peço para que ele faça um diário com os sintomas e quais são os eventos desencadeados. Gosto de dizer que não faço apenas a perspetiva holística, faço a integrativa, porque apesar de trabalhar a vertente holística, não descuido da outra vertente. Trabalho com eles sobre os erros alimentares, horários de sono, horários de alimentação, convergimos sempre essas duas vertentes.
Em termos de feedback, tem sido muito bom e como disse integro a melhor das duas vertentes de tratamento, a holística e a clássica. Um pólipo para mim, a melhor forma de o tratar e através de uma polipectomia. Posso trabalhar naquele indivíduo para que ele tenha um transito intestinal saudável e tentar diminuir a probabilidade de ele ter um novo pólipo. A minha estratégia para o que foi diagnosticado é utilizar a vertente da medicina clássica e a outra vertente que íntegro é evitar o padrão recorrente.
JP – O uso da Holística pode ser usado em outros tratamentos que não apenas na Gastrenterologia?
SB – Sim, acredito numa versão Ho ística de todas as patologias, porque o indivíduo é sempre um todo.
JP – Na manhã do dia 22 de Fevereiro de 2025 esteve no Rádio Clube de Angra junto com Gabriela Juárez, onde falaram sobre o tema “O corpo fala: Emoções e transtornos digestivos”. O corpo necessita da mente para se curar?
SB – Sim, sem dúvida. A forma como encaramos a doença “é meio caminho andado” para como ela se vai desenvolver e a medicina clássica pela neurociência hoje em dia já o prova. O exemplo do efeito placebo o confirma.
JP – Além do desempenho da sua profissão a Sofia participa em workshops e em retiros com foco na regulação interna e na relação com o corpo.
SR – Recentemente, fiz certificação no Método “Heal Your Life” de Luise Hay, é um método com mais de 40 anos, fiz dois workshops e o meu plano é também organizar alguns retiros onde possa juntar pessoas com os mesmos problemas. Há cerca de um mês fiz um retiro em Alcobaça que foi uma experiência fantástica e que pretendo replicá-lo cá na ilha. Posso adiantar que fui convidada para falar sobre Gastrenterologia Holística num congresso que estamos a organizar sobre Gastrenterologia, promovido pelo Núcleo de Gastrenterologia dos Hospitais Distritais e que acontecerá aqui na ilha Terceira, em Outubro deste ano.
Entrevista e fotos: Rui Marques/JP
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Jornal da Praia (JP) Em 2025 o Samuel teve um ano em cheio, repleto de atuações na ilha Terceira, que passou também por São Jorge ou pelo Pico e em especial pelas nossas comunidades da diáspora? Qual o balanço que faz?
Samuel Borges (SB) – Antes de mais, quero aqui saudar o Jornal da Praia e agradecer o convite que me fizeram para esta entrevista.
O ano 2025 foi muito marcante para mim, porque foi um ano recorde nas minhas atuações de cantorias de improviso. Foi um ano que, também, me estreei como escritor de assuntos de Carnaval com o assunto para o bailinho M&Companhia, mais conhecido pelo Bailinho das Motas.
A nível de cantorias, foram 65 atuações, distribuídas em grande número pela ilha Terceira, seguindo-se São Miguel, Pico, São Jorge e as comunidades no Canadá e nos Estados Unidos da América.
JP - … como é que foram as deslocações ao Canadá e aos Estados Unidos? E qual foi a receção do dos nossos emigrantes?
SB – Foram boas. Foram deslocações muitos boas. No Canadá, foi como um regresso porque já não ia ao Canadá desde 2016 e os Estados Unidos é já uma “casa” mais habitual de visitar, tanto Califórnia como a costa leste.
A receção do povo emigrante, devido à “Saudade” e à falta que sentem das nossas tradições, é mais calorosa e vejo que existe muitos jovens mesmo nascidos no Canadá e Estados Unidos que querem manter e seguir as nossas tradições, o que herdaram dos seus avós e dos seus pais, querem manter e continuar com as tradições na nossa Diáspora.
JP – E em relação às atuações nas outras ilhas… o público não é o mesmo que na ilha Terceira, mais habituado às cantorias de improviso. Têm também a tradição de cantar ao desafio?
SB – São Jorge, pode-se dizer que já têm a tradição de cantar ao desafio, levada para esta ilha muito pelo Bruno Oliveira e pelo António Isidro, dois dos grandes cantadores açorianos da atualidade, embora cantadores com estilos de cantar totalmente diferentes. Podemos dizer que a ilha de São Jorge já tem tradição, com várias cantorias que se realizam todos os anos.
Quanto a São Miguel, é berço também de muitos cantadores ao desafio, muitos deles emigrados nos Estados Unidos e outros residentes na ilha, começam a surgir, tal como acontece na ilha Terceira, uma nova vaga de improvisadores que levam esta tradição “para a frente”, como o Paulo Miranda, o André Monteiro ou o Bruno Botelho, pelo que se pode dizer também que as cantorias ao desafio já são uma tradição também na ilha de São Miguel.
Aqui na ilha Terceira, não desvalorizando as outras ilhas, é onde se verifica o ponto mais forte das cantorias ao desafio… por exemplo, por alturas do verão, podemos ter cantorias todos os dias, o que não acontece nas outras ilhas.
JP - Para quem não conhece quem é Samuel Borges?
SB – O Samuel Borges, começando pela minha infância foi um rapaz que sempre ambicionou muito, sempre quis muito e sempre lutou por muito.
Hoje em dia é um homem que continua com esta ambição de querer sempre mais, a lutar pelos seus sonhos, com uma vida agora muito ocupada e como se diz “Quem corre por gosto, não cansa”. Tirando isto, Samuel Borges é uma pessoa como as outras, um amigo do amigo, gosta de ajudar quem precisa, um homem que gosta das nossas tradições e que gosta de ver o que é nosso ter brilho.
JP - … como é que surgiu o cantar ao desafio na sua vida?
SB – Pois… o cantar ao desafio começou nos jantares de família. Antes, pelos meus 8, 9 anos já escrevia uns versos que tinham alguma rima. Nos jantares de família de Natal ou de Passagem de Ano, junto com o meu tio, Armando Duarte da Casa da Ribeira, mais conhecido pelo “Rato” e acompanhado pelo meu irmão Venâncio Borges ao violão, fazíamos algumas cantorias. Por volta dos meus 18 anos, na altura pertencia a um bailinho de Carnaval, era também um dos organizadores, tivemos a ideia de fazer um jantar e uma cantoria para angariar fundos para o bailinho. O meu irmão decidiu que eu deveria estrear-me a cantar neste jantar. Assim, a 9 de Março de 2013, neste jantar que se realizou no Salão da Casa da Ribeira, fiz a minha estreia, acompanhado pelo cantador José Emitério, mais conhecido pelo José da Agualva. A partir daqui fui ganhando mais prática, com mais atuações e até hoje tem corrido bem.
JP - Para o Carnaval de 2026, o Samuel já escreveu alguns assuntos e cantigas para bailinhos sénior e Carnaval? E a inspiração como é que surge?
SB – Este ano escrevi para sete grupos. A minha estreia a escrever assuntos de Carnaval foi no ano passado e em 2024 foi a minha estreia a escrever cantigas. Este ano surgem sete grupos, seis deles foram assuntos e algumas cantigas e o sétimo foram apenas cantigas que escrevi para o Grupo de Jovens da Casa dos Açores de Hilmar na Califórnia.
A escrita para os assuntos, pois depende… quando um grupo pede para escrever um assunto ou umas cantigas e vem com uma ideia do que quer, com as personagens, cenários já pensados, cria-se a história e passa-se tudo para versos. Existem também outros grupos e que me aconteceu este ano, convidam para escrever um assunto, mas não têm ideia nenhuma, dão-nos a liberdade de escolher e escrever o que vai na nossa mente.
A inspiração é uma pergunta engraçada porque nem nós mesmo sabemos como surge. Por vezes passa uma ou duas semanas sem inspiração, parados no mesmo assunto e quando surge aquele dia em que a inspiração surge, parece que até nasce debaixo dos pés e naquele mesmo dia escrevemos o assunto completo. Acho que a inspiração e a vontade de escrita tem a ver com a nossa rotina…
JP - Estamos praticamente no início do Carnaval 2026, como estão a decorrer os preparativos?
SB – Para este ano, saio no Bailinho dos Rapazes do Cabo da Praia, os ensaios estão a correr bem… estamos praticamente no início do Carnaval, já estamos todos em força, pois os bailinhos seniores já começam no próximo dia 24 e já não há tempo a perder e lá vamos nós em força.
JP - O Samuel é de uma nova geração de improvisadores, escritores, artistas que começam a subir aos palcos e a continuar as tradições. Atualmente, como vê a participação de vários jovens nas nossas tradições? Existe evolução e vontade de querer fazer mais?
SB – Separando aqui os dois lados.
Na cantoria, acho que a altura em que surgiram nomes como Bruno Oliveira, Maria Clara, Fábio Ourique, as cantorias na Terceira deram um salto muito grande na sua evolução, não só a nível do cantar mas também a nível da assistência. A partir daqui passou haver mais gente nos arraiais, a esgotar as cantorias. Nesta evolução surgem mais cantadores como o José Esteves, o Roberto Toledo, eu próprio e mais tarde o Samuel Martins, o José Fernandes, o Valentim, o Artur Miranda, cantadores jovens, com uma grande vontade de continuar esta tradição. São cantadores com estilos de cantar diferente uns dos outros, o que chama mais público aos arraiais porque se fossemos todos iguais no cantar, teríamos uma continuação e a cantoria acabaria por cair novamente no esquecimento.
O lado do Carnaval, acho que temos de agradecer a atual herança de grandes nomes do passado que escreveram assuntos, foram atores e quando nós éramos crianças sentados nos salões, eles faziam de tudo para manter esta tradição de pé. Houve grandes nomes que também eram cantadores e que depois passaram para a escrita de assuntos como o senhor Hélio Costa, o Gaitada das Lajes, o João Leonel, a própria esposa do Leonel, a senhora Celestina que também escrevia assuntos… para mim Hélio Costa foi quem colocou o nosso Carnaval no auge, um homem que escrevia 40 bailinhos por ano é preciso ter muita cabeça e muita vontade. Começam também a surgir outros nomes como Ricardo Martins, o José Esteves, o Samuel Martins, eu próprio, a escrever. Muitos dos grupos também começam a escrever os seus próprios assunto e cantigas, dando uma certa polivalência. Não podemos também esquecer algumas mulheres que também escrevem como a Sandra Vieira.
Todos estes novos escritores são vistos de forma positiva, com formas de escrever e de ideias diferentes, tal como nas cantigas, nos assuntos, na dança, nas cenografias ou na música, também vemos essa evolução o que contribuem para a evolução do nosso Carnaval.
Nos cantadores de hoje em dia verifica-se uma melhor relação entre todos. Antigamente, dividiam-se em grupos, havia uma primeira e segunda divisões, em que alguns chegavam a prejudicar os outros tentando ter o máximo de cantigas para si. Hoje em dia, existe melhor relação entre todos e devemos muito esta boa relação a um grande cantador que é o José Eliseu. O José Eliseu como o povo o intitula e nós cantadores também “o Pai dos Cantadores”, porque o José Eliseu apanhou os dois mundos. Apanhou o mundo das guerrilhas nas cantigas ao desafio, tentado sempre afastar-se dessas confusões e apanhou a nova vaga dos cantadores atuais.
JP - Quando o Samuel sobe ao palco prepara-se, tem algum ritual, analisa o auditório antes de iniciar a sua interpretação?
SB – Pois, é assim… fácil! Se eu disser que é fácil para mim tendo este dom. torna-se mais fácil cantar. Agora para quem não tem o dom de cantar ao desafio é mais difícil.
A nível do local onde vamos cantar, tento sempre saber o mínimo, pelo menos respeitável de onde vou cantar. Tento saber um pouco da história e o padroeiro é um tema quase obrigatório. Se me perguntar se sou de ler muito e estudar o local a fundo, digo que não sou. Vou cantar com o mínimo de informação. Quanto aos cantadores, conheço mais ou menos o estilo de cada, e tento adaptar-me ao estilo de cada um. Quanto ao povo, existe aquele povo que vai de freguesia em freguesia ver as cantorias e aquele que apenas vê na sua freguesia.
Conseguimos, nas duas, três primeiras cantigas, analisar praticamente o povo. Conseguimos perceber se vai ser uma noite de povo ativo ou se nós é que temos de ativar o povo, se temos de puxar um assunto que mexe com o povo. De resto, ritual não, gosto muito em dias da cantoria, depois de chegar a casa do trabalho, descansar, fazer uma sesta, pelo menos uma hora, fazer as minhas coisas normais e seguir viagem.
JP - Estamos no início de 2026, o que tem já agendado para este ano?
SB – Para este ano já tenho agendado 30 atuações em palco.
As comissões já têm a preocupação de agendar as cantorias no ano anterior para o ano seguinte. Porquê? Devido às cantorias nas nossas comunidades, por vezes as datas chocam com as atuações nas nossas festas. Aconteceu muitas vezes as comissões de festas convidar um cantador e ele não podia porque estava nas comunidades a atuar para os nossos emigrantes, as comissões passaram a convidar mais cedo. Vou dar o exemplo do Porto Martins, estava eu a descer do palco e já estavam a convidar para o ano seguinte. Assim que acabou os Bodos, os Altares convidaram-me para o ano seguinte. É uma forma de precaver, de não andarem aflitos com o programa e assegurar assim os cantadores.
Acho que este ano vai ser um ano de muita festa, de muita cantoria. Acho que vai ser um ano em que o povo espera algo novo dos cantadores, cantigas de forma diferente, apreciando as cantigas sérias mas querendo rir um bocadinho porque “para tristezas já basta a vida”.
Espero que seja para mim, para os outros cantadores, tocadores, comissões de festas, um ano feliz e de sucesso com boas atuações.
JP – Qual é mensagem que quer deixar aos nossos leitores?
SB – Estando no início do ano, quero aproveitar para desejar a todos um ano feliz e dizer o que digo em muitas entrevistas, lutem pelos vossos sonhos e por muito cansativo que seja, mais tarde compensa. Não deixem de lutar, não deixem de acreditar e desliguem-se um bocadinho do mundo à volta e liguem-se a si mesmos, porque “o sonho comanda a vida” e se acreditamos, lutamos e queremos mesmo aquilo só há uma forma possível de o conseguir é metermos os pés ao caminho.
Entrevista: Rui Marques/JP
Foto: Erica Cardoso





